terça-feira, 18 de novembro de 2008

Raul e a Censura


Introdução


O Brasil sofreu um golpe militar no ano de 64, ditadura se estabelecia como governo militar.Com a saída de Jânio Quadros da presidência em 61, o seu vice João Goulart assumiu o cargo de presidente do país. No dia 1° de abril de 1964 no Estado de Minas, o golpe militar foi anunciado pelas tropas comandadas pelo general Olimpio Mourão Filho. Grande parte da sociedade brasileira apoiava o regime militar. Os militares começaram a tomar conta de tudo que acontecia no Brasil, vários artistas, músicos, jornalistas, sofreram repressão e tortura durante o regime militar que acabaria 21 anos depois.
Em meio a censura militar, os artistas começaram a publicar seus trabalhos de modo que o governo não percebesse suas mensagens. Cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Raul Seixas escreviam as letras de suas músicas metaforicamente, tentando burlar o sistema, nem sempre dava certo, grande parte era modificada pela SNI (Serviço Nacional de Investigação) criada em 68, passando a interferir com mais vigor nas composições musicais e, manifestações culturais. A maioria destes artistas
precisou sair do país para não sofrer tortura, chamados de exilados.
Grandes artistas sugiram na época do regime militar, a pesquisa foca um cantor baiano que começou sua carreira musical em meados de 1962 com o Relâmpago do Rock, depois o grupo passou a se chamar The Panthers, Raulzito e os Panteras e por fim Raulzito e seus Panteras. Raul Seixas, sofreu repressão militar durante anos de sua carreira musical, antes de ser cantor Raul era filosofo. Natural de Salvador, filho de pais burgueses, Raul entendia sobre o céu e a terra, um escritor visionário que era contra a censura imposta pela ditadura militar, ouviu na adolescência o rei Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis,Chuck Berry, Blues ,os baiões de Luis Gonzaga e repentistas nordestino. Tornou-se ídolo de diversas gerações e até os dias hoje suas músicas são atuais.







O Golpe Militar

Ocasionado pela crise que se agrava desde a renúncia de Jânio Quadros em 61, o vice João Goulart assumiu a presidência em um clima político adverso. Seu mandato (1961-1964) ficou marcado por aberturas às organizações sociais. Estudantes, trabalhadores, organizações populares, causaram medo nas classes empresarias, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Temiam que o Brasil se tornar socialista, pelo receio de esquerda preocupava até os Estados Unidos e as classes conservadores de um golpe comunista.
O partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), acusavam Jango de estar planejando um golpe de esquerda. Em 13 de março de 1964 Goulart realizou um comício na Central do Brasil ( Rio de Janeiro), no qual defendia reformas de base, prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional.
Depois de alguns dias, os conservadores se reuniram em uma manifestação contra as idéias de João Goulart, chamada de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A crise política aumentava cada dia e no dia 31 de março de 1964 tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas para evitar uma guerra civil. Jango deixa o país e refugia-se no Uruguai. Com isso, os militares assumem o poder. Em 9 de abril é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1), com o objetivo de caçar mandatos políticos de opositores ao regime militar e tirar a estabilidade de funcionários públicos.
Nos primeiros dias após o golpe, aconteceu uma repressão aos setores politicamente mais mobilizados um apoio nos partidos de esquerda criados no governo anterior, sofreram essa repressão a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Confederação Geral dos Trabalhadores, as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas foram presas irregulares e torturadas.
Parte da sociedade brasileiro, saudava o golpe. Parte do empresariado, como da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja Católica e alguns governadores, Carlos Lacerda (da Guanabara), Magalhães Pinto, ( Minas Gerais), e Ademar de Barros, ( São Paulo) e o setor da classe média, pedia intervenção militar, como modo de por fim ao grupos de esquerda. Os Estados Unidos aprovou o golpe, porque tinha medo do Brasil a exemplo de Cuba e torna-se comunista.
A desorganização do golpe ficou evidente entre os militares. Não havia um projeto do governo bem elaborado, era apenas a necessidade de retirar algumas pessoas das instituições e recuperar a economia. O diferencial dos golpistas militares era a avaliação da profundidade necessária à intervenção militar. Os militares envolvidos no golpe justificavam que seu objetivo era restaurar a disciplina e a hierarquia na Forças Armadas e destruir o perigo comunista.
Os militares sempre destacavam que o fato de que não estarem sós, que o golpe de 1964 não foi iniciativa exclusiva, e sim resultado da confluência e do apoio de importantes classes da sociedade civil, preocupados coma possibilidade esquerdista de dominação no Brasil.
No inicio da revolução, estava claro que permaneceria durante todo o regime militar- a busca de preservar a unidade por parte dos militares no poder, apesar de conflitos internos nem sempre resolvidos. O medo era evidente de voltar a política passada ou de uma ruptura no interior das Forças Armadas estariam presentes durante 21 anos dos militares no poder.

Raul Seixas – Cultura, Repressão e Censura.
Raul Seixas era filosofo e escritor antes de ser músico, nasceu no dia 28/06/1945 em Salvador/Ba. Na adolescência ouviu muito rock’n’roll, o seu ídolo era Elvis Presley, e outros como Jerry lee Lewis, Little Richard, Chuck Berry , Blues e o baião de Luís Gonzaga, Raul entendia sobre o céu e a terra, e com suas letras visionarias tornou-se ídolo de várias gerações. O que espantava seus pais burgueses. Trocou sua lambreta por dois velhos violões e um contrabaixo e formou sua primeira banda de rock, com o nome Relâmpago do Rock em 1962, depois passou a se chamar The Panthers, Raulzito e os Panteras e por fim Raulzito e seus Panteras. Fez varias apresentações nas noites de Salvador e programas de rádio. Em 67, a convite de Jerry Adriani, a banda foi até o rio de Janeiro para lançar um LP, que foi um fracasso. Em 70, Raul foi convidado a trabalhar com um produtor de discos da CBS. Participou em 1972 do VII Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, com a música Let me Sing, Let me Sing, e Eu Sou eu, Nicuri é o Diabo, porLenas Rios. A gravadora expulsou após ele ter participado do festival, (motivo desconhecido). Logo em seguida lançou seu primeiro disco solo Krig-Há Bandolo! (1973). Também em 73 Raul conheceu seu maior amigo,o jovem Paulo Coelho, escritor e artista, a dupla criou letras que vendias milhares de copias, e ingressou em uma das maiores ideologias, a Sociedade Alternativa, uma organização que se opõe à ideologia capitalista, defende a liberdade em todos os níveis e classes sociais direito de expressão. Neste período o regime ditatorial os consideru uma ameaça e os dois foran presos, pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Torturados e exilados, Raul se separa de Paulo, e vai morar nos Estados Unidos, durante esse período Raul conheceu a terra natal de seu maior ídolo Elvis Presley, visitou Memphis e outros lugares importantes do rock mundial. Com o sucesso do LP Gita (1974), Seixas Retorna ao Brasil que vendeu mais de 600 mil copias.
A música tornou-se um dos alvos preferidos da censura e da repressão, o que gerou a saída dos intelectuais do Brasil, nem sempre por vontade própria. Os que ficaram tiveram de criar um modo de burlar a vigilância dos militares ou entregaram-se a obras de consumo fácil e préstimo duvidoso. Aterrorizados pela situação, não só os autores, mas também, produtores e editores começaram a praticar autocensura. Até mesmo Chico Buarque, afirmou em entrevista no ano de 71 “ é claro que cheguei a autocensura”. Alguns artista até chegaram a criar autores fictícios para poder publicar seus trabalhos. Mas o que diz respeito a Raul Seixas é que não se autocensurou, o que não implica em seus trabalhos alheios a censura, utilizava diversos recursos para poder passar suas mensagens.
A censura não era inteligente em relação aos movimentos artístico, qualquer ato podia ser declarado como uma ofensa ao governo militar, não conseguiam perceber o que era critica, censuravam e pronto. Uma das músicas mais conhecida do cantor baiano é Óculos Escuros, que sofreu uma grande alteração pela censura. Confira a letra original:
Óculos escuros
Quem não tem colírio, usa óculos escuros (2x)Quem não tem colírio, usa óculos escuros essa luz tá muito forte tenho medo de cegarQuem não tem colírio, usa óculos escuros os meus olhos tão manchados com teus raios de luarQuem não tem colírio, usa óculos escuros eu deixei a vela acesa para a bruxa não voltarQuem não tem colírio, usa óculos escuros acendi a luz do dia para a noite não chiarQuem não tem colírio, usa óculos escuros quem não tem papel dá o recado pelo muroQuem não tem presente se conforma com o futuro [refrão]Quem não tem colírio, usa óculos escuros já bebi daquela água quero agora vomitarQuem não tem colírio, usa óculos escuros uma vez a gente aceita, duas tem que reclamarQuem não tem colírio, usa óculos escuros a serpente está na terra o programa está no arQuem não tem colírio, usa óculos escuros vim de longe de outra terra pra morder teu calcanhar[refrão]Quem não tem colírio, usa óculos escuros essa noite eu tive um sonho, eu queria me matarQuem não tem colírio, usa óculos escuros tudo tá na mesma coisa, cada coisa em seu lugarQuem não tem colírio, usa óculos escuros com dois galos a galinha não tem tempo de chocarQuem não tem colírio, usa óculos escuros tanto pé na nossa frente que não sabe como andar

Durante quase toda sua carreira Raul sofreu a censura. Em entrevista ao Programa do Jô, no ano de sua morte, Raul diz “Eu sempre tive problemas com a censura. Até hoje eu tenho 11 músicas censuradas. Eles olham minha obra de cima para baixo, sacodem para ver se sai alguma coisa”. Apesar da voz chata de Raul por tudo o que lhe acontecera no regime militar, o baiano filósofo e escritor, conseguiu passar sua ideologia através da música, tornou-se um importante cantor brasileiro, e que deixo mensagens, que marcam o seu lado humanista, não para si, mas para quem quiser ouvir e refletir. A Lei é uma das músicas que tem um sentindo social e de liberdade em sua letra.
A Lei
Todo homem tem direitode pensar o que quiserTodo homem tem direitode amar a quem quiserTodo homem tem direitode viver como quiserTodo homem tem direitode morrer quando quiser

Direito de viverviajar sem passaporteDireito de pensarde dizer e de escreverDireito de viver pela sua própria leiDireito de pensar de dizer e de escreverDireito de amar, Como e com quem ele quiser

A lei do forteEssa é a nossa lei e a alegria do mundoFaz o que tu queres ah de ser tudo da leiFazes isso e nenhum outro dirá nãoPois não existe Deus se não o homemTodo o homem tem o direito de viver a não ser pela sua própria leiDa maneira que ele quer viverDe trabalhar como quiser e quando quiserDe brincar como quiserTodo homem tem direito de descansar como quiserDe morrer como quiserO homem tem direito de amar como ele quiserDe beber o que ele quiserDe viver aonde quiserDe mover-se pela face do planeta livremente sem passaportesPorque o planeta é dele, o planeta é nosso. O homem tem direito de pensar o que ele quiser, de escrever o que ele quiser. De desenhar, de pintar, de cantar, de compor o que ele quiserTodo homem tem o direito de vestir-se da maneira que ele quiser

O homem tem o direito de amar como ele quiser, tomai vossa sede de amor, como quiseres e com quem quiseresHá de ser tudo da leiE o homem tem direito de matar todos aqueles que contrariarem a esses direitosO amor é a lei, mas amor sob vontadeOs escravos servirãoViva a sociedade alternativaViva VivaDireito de viver, viajar sem passaporteDireito de pensar de dizer e de escreverDireito de viver pela sua própria leiDireito de pensar de dizer e de escreverDireito de amar, como e com quem ele quiserTodo homem tem direitode pensar o que quiserTodo homem tem direitode amar a quem quiserTodo homem tem direitode viver como quiserTodo homem tem direitode morrer quando quiser

Raul Seixas

Ultima Mensagem
Já a música “Geração da Luz”, mostra uma “despedida” de Raul, ressaltando sua contra a não liberdade e tudo que ainda ele espera das novas gerações a partir daquilo que ele deixou como semente dessa luta.


Letra de “ Geração da Luz “

Eu já ultrapassei a barreira do som Mesmo que pareça que não há mais lugar
Fiz o que pude às vezes fora do tom Vocês inda tem
Mas a semente que ajudei a Vocês inda tem
Plantar já nasceu ! A velocidade da luz pra alcançar
Eu vou, eu vou m’embora Além depois dos velhos preconceitos morais
Apostando em vocês Dos calabouços, bruxas e temporais
Meu testamento deixo minha
Lucidez Onde o passado transcendeu
Vocês vão ter um mundo bem Há um reino de paz!
Melhor que o meu!
Quando algum profeta vier lhe Vocês serão o oposto dessa estupidez
Cantar Aventurando tentar outra vez
Que o nosso sol ta prestes a se apagar A Geração da luz é a esperança no ar !

Do Disco Metrô linha 743, de 84


Fonte:
Ditadura militar- www.suapesquisa.com/ditadura/
Raul seixas – www.dacex.ct.utfpr.edu.br/8dilson.htm
Letra Geração da Luz – Folha de São Paulo, folha teen – segunda feira, 16 de agosto de 1999.

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